domingo, 3 de fevereiro de 2013

Até sempre...

Nasceu em 1922, sob o signo da Balança, em Esmoriz. Aprendeu a ler e a escrever com o pai, numa familia em que apenas os homens tinham esse direito. Foi cordoeiro e angariou muitos figurantes para filmes com a Amália Rodrigues, afirmando que partilhou vários cigarros com a fadista, casou com uma prima, contra o desejo da sogra que até praga à filha rogou. Teve uma filha e perdeu a mulher oito anos depois para a leucemia.Viu-se obrigado a ir para Lisboa à procura de trabalho e a deixar a filha com a sua irmã mais velha e as primas que a criaram. Foi motorista e mais tarde formou sociedade de artigos de papelaria. Casou novamente quando a filha tinha 18 anos porque ela foi para Lisboa para ir trabalhar e ele pensou que ela necessitaria de uma orientação feminina. Sempre muito trabalhador e muito correcto, viu a filha casar e foi presenteado com dois netos. Reformou-se aos 65 anos e teve o bom senso de admitir que não devia conduzir. Sempre teve excelente saúde  segundo ele graças ao sumo da uva.  Perdeu a 2ª esposa para o cancro, contrariando o plano de envelhecer ao lado de alguém. Muito querido por todos o que o conheceram, era impossível ficar zangado com ele, adorava falar, mesmo que nem sempre tivesse assunto. Nunca teve "mau vinho" e quando tinha um copito a mais era muito mais divertido e chegava a jogar playstation com os bisnetos. Dizia que queria morrer numa piscina de vinho e combinava com o senhor da agência funerária para o levarem direitinho. Chegou aos 90 anos sem ter qualquer problema de saúde, e sem nunca o aparentar. Era o meu avô Pinto e deixou-me na quinta-feira, menos de uma semana de dar entrada no hospital com um AVC. Foi sem grande sofrimento como ele sempre pedia, e deixou-me a mim e à minha mãe, a filha dele, com um grande vazio,agora quem é que me vem à janela todos os dias dizer adeus antes de eu ir trabalhar? Quem é que me vai ligar a dizer que não consegue ver a televisão ou que o telefone não funciona, quem é que me vai dar secas quando eu estiver doente? Para quem é que vou ligar às 7h da manhã quando estiver nas minhas caminhadas em férias? Quem é que me vai fazer perguntas como as que fazias "de onde é que sai a Internet?"?
Havia muito para contar sobre o meu avô, mas não vou maçar mais. Sempre achei que ele ia durar para sempre e nunca pensei que no dia em que fez seis meses que o meu pai faleceu eu estaria a enterrar o meu último avô. Vou sentir muito muito muito a tua falta, mas espero que estejas num sítio melhor e que olhes por nós...até qualquer dia...